Gravidez e o Trauma Raquimedular



No Brasil, há cerca de dez anos havia 130 mil indivíduos com trauma da raquimedular (TRM) e, a cada cinco pessoas vítimas de lesão traumática da medula, uma era mulher. Atualmente esses números devem ser ainda maiores.


Devido ao TRM ser menos incidente entre mulheres, e por estas permanecerem férteis e capazes de levar uma gravidez a termo, a literatura tem ignorado grandemente seu estudo – fato que não elimina as muitas alterações de caráter psicofisiológicos, bem como as alterações na sexualidade e outras dificuldades durante a gestação.


Portanto, fez-se necessária a exploração desses aspectos para que se possa compreender a complexidade inerente da análise da gravidez associada ao TRM.


A medula espinhal é uma grande condutora de impulsos nervosos, sensitivos e motores entre o cérebro e as demais regiões do corpo, estando alojada e protegida pela coluna vertebral.


É parte do sistema nervoso central, e qualquer dano causado por agente físico ou choque violento pode causar perda permanente da sensibilidade e/ou motricidade – condições que representam uma das mais graves incapacidades para o ser humano, pois pode causar alterações nas funções fisiológicas, das quais podemos citar como principais as respiratórias, vasculares, sexuais, urinárias e intestinais, como também na resposta reflexa e nos aspectos tróficos.


A capacidade reprodutiva da mulher com TRM está conservada; se a gravidez não for desejada, ela deverá utilizar métodos contraconceptivos, com necessária orientação médica. E, quando tomada a decisão de uma gravidez, a mulher com TRM necessitará de acompanhamento médico para o cuidado das eventuais intercorrências durante o período.


É importante ressaltar que, logo após o trauma, descreve-se um período denominado choque medular, no qual ocorre ausência de menstruação (amenorréia), fase apresentada na literatura com variação de um a seis meses, impossibilitando a gravidez imediatamente após o trauma.


Após o término desse período variável, a mulher retorna às condições favoráveis para uma gravidez.


Para muitas mulheres, a diminuição ou perda da sensibilidade geniturinária é um dos maiores impactos do TRM. Consequentemente, essa alteração pode levar à incontinência urinária, caracterizando possivelmente a maior razão de restrição e esquivo em relação a atividade sexual.


Considerando a gravidez, os traumas torácicos altos e cervicais merecem uma atenção especial no aspecto da função respiratória, pois esta pode estar prejudicada pelo aumento do peso da gravidez e pelo trabalho de parto; assim, o risco de parto prematuro pode aumentar discretamente.


O tipo de parto pode ser determinado por indicação do obstetra que acompanha a gestante e a indicação para o parto cesárea atinge os mesmos índices em relação às mulheres sem TRM.


Quando o tipo de parto é o normal, há necessidade de atenção às possíveis complicações, como o aumento de infecções urinárias, da espasticidade, maior risco de úlceras de pressão, anemia e complicações tromboembólicas, entre outras.


O TRM provoca também diminuição da reserva respiratória da capacidade vital, do volume corrente e pode levar ao aparecimento de atelectasias e pneumonias devido ao mau funcionamento muscular da caixa torácica.


A hipotensão arterial também é uma ocorrência possível para paciente com TRM, sendo frequente devido à falta de autorregulação – situação agravada durante a gestação devido às mudanças hormonais que provocam diminuição da resistência vascular sistêmica.


Em relação às contrações uterinas, os traumas completos da medula não as inibem. As contrações podem ser percebidas através de espasmos musculares abdominais ou dos membros inferiores, e ainda por aumento da pressão na região da pelve. Entretanto, pacientes com TRM acima de T10 não conseguem identificar o momento do parto.


A dilatação cervical é sentida a partir de T12 – onde as mulheres com trauma completo sentem dor e desconforto durante as contrações uterinas – e se faz necessário o monitoramento das contrações a partir do sétimo mês.


Ainda por razão da fraqueza muscular abdominal, no parto vaginal pode ser necessário o uso de recurso de assistência como o fórceps e a episiotomia.


Considerando os fatores descritos na literatura, pode-se observar que o parto normal é indicado para mulheres com TRM – situação que muitas vezes é desconhecida, até pelas limitações físicas impostas pelo TRM.


Podemos observar também que o parto cesariana é o mais utilizado segundo as pesquisas disponíveis, mesmo considerando o fato de que a disrreflexia autonômica pode ser deflagrada pela instrumentação cirúrgica.


Em conclusão, é possível observar alguns aspectos, tais como: depois de vencida a barreira da sexualidade, a gravidez é possível no TRM; o tipo e nível de TRM exercem interferência direta sobre a transcorrência da gravidez e do parto; a disrreflexia autonômica é a complicação mais mencionada e temida na gravidez ou no parto, podendo oferecer maiores; o uso de anestesia peridural é tido como o melhor método de prevenção da disrreflexia autonômica, tanto no parto normal como na cesariana; o parto tipo cesariana é relatado pelas pesquisas disponíveis como o mais frequentemente utilizado, mesmo na possibilidade do normal.


Pela

Dra. Luana Crepaldi De Brida - CRM 18498

Ginecologista e Obstetra RQE 14897 e Medicina Fetal RQE 17615

End.: Rua Coronel Pedro Benedet, 363.

Ed. San Vicente – Sala 402

Criciuma – CEP 888012-50

Fone 48 3433-1228 e what app 48-98820-4040

Michele A.R.F - membro da Associação Vida Ativa São José, que teve uma gravidez pós TRM, com maternidade exercida na sua plenitude.

Maria N.M -membro da Associação Vida Ativa São José, que teve gravidez pós TRM - com a maternidade exercida com muito amor e desejada.

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